Como conciliar a ideia de não-violência do budismo com o pensamento revolucionário?

O conceito de não-violência budista parece diretamente antagônico ao desejo por uma revolução, que é inerentemente violenta.

Como podemos conciliar as duas ideias, politicamente e na nossa prática espiritual?

Olá grande camarada rockstar plá, darei minha humilde contribuição e aparentemente serei o inaugurante também :folded_hands:t4:.

pra responder essa pergunta sem floreios, eu dividiria ela em três pontos:

  1. O que é violência, sob a ótica budista?
  2. O que constitui uma revolução?
  3. Quais fundamentos budicos estão ancorados nessa questão?

Começando com o primeiro ponto:

De antemão, a violência em si é estritamente um algo a se abdicar durante a jornada espiritual na maioria dos fundamentos de todas as escolas budistas que conheço e estudo. a não-violência (Ahimsa) é um fundamento ético-moral central na cultura budica.

Porém, a violência enquanto ação emerge como um sintoma de um dos Kleshas, estados de alteração mental obscuros, maléficos e que pertubam o equilíbrio mental, gerando sofrimento (Dukkha).

A violência é tudo aquilo que é fruto sintomático da aversão, da ignorância, da ilusão, da desilusão, do ódio e do medo.

Quem conduz o Karma (lei de ação) antes da conclusão do mesmo é a própria frequência da intenção daquele estado mental que o transforma em uma ato/fala/pensamento violento.

Dito isso, aquele que utiliza de um ato de defesa e resistencia em prol daquilo que se distancia desses kleshas (Amor, Compaixão, Paz, Equanimidade) não tem o mesmo peso karmico de outro que utiliza de um ato de ataque por aversão, ódio, ganância, etc.

Sobre o segundo ponto, trago de antemão tambem uma resposta clara e definitiva: a resposta concreta ao que é maléfico, é aquilo que é benéfico.

toda carga karmica negativa resultará em um karma negativo. O que cessa a sombra é a luz, o que cessa a violência é a não violência. Mas isso não significa passividade, ingenuidade e inatividade.

Toda revolução deve considerar a cultura como o objeto de transformação definitivo pois a cultura é o berço intelectual, racional e crítico do ser humano. A revolução cultural de Mao na china apontava pra importância da vigilância sobre aspectos socioculturais que eram considerados ultrapassados e opostos a uma formação de consciência politico-social de classe equanime.

Diante de um cenário onde boa parte de todo ódio, aversão, medo e ganância daqueles que nos governam são justificados através de uma suposta autoridade espiritual (seja no contexto regional ou no global), é importante entender até onde as nossas justificativas que tomam o caminho de ação contrário: de abstenção, isenção e irresponsabilidade são piores pro Dharma.

Pois pior do que lutar através da mentira, é não lutar conhecendo a verdade. É justificar com o ego uma falsa incapacidade de libertar o outro, que não teve a oportunidade de tocar a mesma luz que você.

Concluindo com um pouco mais de budismo:

Gautama alinhou seu buddhadharma através de experiências com outros sábios ascetas, advindos de povos e visões distintas(bramanismo, jainismo, e outras culturas ascetas de sua epoca).

Siddharta Gautama e sua Sangha foram responsáveis por um grande fluxo de conversão de dalites hindis pro budismo, que buscavam escapar do sistema opressor de castas.

Siddharta articulava com reis e povos nobres, cessou diversas tentativas de assassinato através do convencimento, do diálogo, do ensino.

Mas no mundo de hoje, há várias formas de se silenciar alguém, algumas dessas totalmente imunes ao diálogo.

A preservação do corpo (veiculo) é crucial. Pois a mente no estado puro de buda, conduz a preservação do dharma (através da sintese mensageiro + mensagem viva).

o karma (intenção+ação) que conduz a preservação dessa sintese, sendo a resistência que resulte em um combate, tem peso benéfico ou maléfico?

Tudo depende da necessidade.

O budismo tem métricas pra isso, os shaolins já traduziram esse enigma pra gente, deixo pro pessoal dar os adendos sobre, enfim não tô inventando a roda.

Então, fica a grande questão que pra mim eu me recuso a tentar definir que é:

Qual é o real objetivo de um budista no mundo de hoje? É abdicar da materialidade e se curvar ao karma e a paz alcançada internamente? É encontrar formas em meio aos desafios propostos no samsara pra alcancar aqueles q precisam do dharma?

pra mim, ambos são budismo, e um depende do outro, não há dualidade.